Me peguei no mesmo horário, no mesmo dia da semana, um domingo. Me peguei saindo do mesmo lugar, do mesmo apartamento, em direção ao caminho que fiz com você.
Estranhamente eu notei pessoas pelas ruas. Na verdade eu notei que haviam pessoas, pois da primeira vez eu nem notei que o mundo existia.
Você caminhava ao meu lado... insistia em não me dar a mão e eu insistia em pegar na sua mão, um adolescente típico desejando o toque da pele do primeiro amor. Insistia em olhar para você, mesmo que você propositadamente não olhasse para mim, o maior tempo possível, adorava você em silêncio, em pensamento, em palavras, em ardor, em gemidos, em gritos... não me importava onde ou quando, mas precisava decorar cada pedacinho seu, saber de cada reação, de cada jeito... sempre quis beber de você, me embriagar de você, sempre quis na minha busca olhar para você.
Meus passos iam prosseguindo os caminhos que passamos juntos no centro da maior cidade da América do Sul.
Parei em cada um que paramos e bati as mesmas fotos que você bateu.
Óbvio que não com a sua visão esmerada, mas quis guardar para mim a sua sensação diante de cada arquitetura, de cada monumento, de cada banca de jornal e até da árvore com milhares de sacos plásticos presos esvoaçantes, como uma lata de lixo viva... só que dessa vez ela estava com muitas folhas, e percebi mais o verde que os sacos hasteados ao vento.
Passei pelo pedaço da praça onde você achou que era um barzinho do Rio, pela ventilação do chão que subiu sua saia indecentemente, num revival de Merilyn, porém com uma mulher muito mais linda e doce.
Caminhei pelo seu palco, onde você dançou em pleno calçadão, em movimentos graciosos, me fazendo sentir como um ganso desengonçado perto de um cisne lindo, como o único espectador de um balé perfeito. Relembrei cada movimento seu. Cada palavra, cada olhar.
Ri quando estava diante do monumento ao Padre Anchieta, das sua interpretação palhaça e altamente profana, vi os mesmos mendigos que passamos quando você me mostrava lugares que eu já tinha ido tantas vezes, mas sem a sua alma poeta, sem a visão e o talento da mulher com os olhos mais perfeitos que eu já olhei.
O Viaduto do Chá... aquele gato barrilforme, amarelo, disfarçando um arcabouço de metal, com patas fincadas no chão.. lembrei dos comentários, da sua risada, do convite que você me fez para pagar o seu almoço naquele restaurante alucinado num dia qualquer da semana... uma semana que nunca vai chegar, um almoço num lugar que nunca vamos olhar a carta de vinho ou o cardápio...
Me encontrei com o velho anjo carcomido pelo tempo que lhe mostrei, pendurado por décadas num prédio antigo, caminhei pela galeria, pelo Patéo do Collegio, pela Sé... senti vertigem com a bagunça instaurada de milhares de pessoas buscando caminhos e diversão, aqueles monges saindo novamente da Catedral e aquele sistema de som chutando os ouvidos... como foi bom o caminho só com você!!! Saí dali correndo, como fizemos, parei no Patriarca e vi novamente aquele grupo de dança e percussão. Parei dessa vez para conversar com um dos integrantes, para saber como eu poderia tocar ali... quem sabe um dia você volte ali e eu possa ver você de novo?
O Theatro... dessa vez sentei naquelas escadarias, passei pela bilheteria que comprei os ingressos para o balé, para o quarteto de cordas e voz, para o recital... ingressos que não utilizamos, pois não tinha sentido ir sozinho se era para mostrar a dignidade, a energia, o inconsciente coletivo dos mestres que habitaram ali a você...
Me enchi de coragem e fui ao monumento a Carlos Gomes, diante dos degraus majestosos que você sempre alucinou, fiquei ali por muito tempo, olhando para a paisagem que você adora, para as pessoas que poderiam um dia ter compartilhado aquele lugar com você. Tentei imaginar o que você pensava naquele lugar, por onde a sua alma ia... não pude conter as lágrimas por não encontrar você ali também. Ainda bem que meus óculos escuros estavam à mão, e com eles eu voltei em direção da República, parei no McDonald's, pedi uma coca e sentei exatamente onde sentamos...
Voltei olhando a Praça da República, bem em frente, como uma ilha de vida no meio de tanto concreto...
Voltei ao velho e bom Copan... o mais solitário, o mais serpenteante, o mais rebelde, desesperadamente em movimento, sofregamente se erguendo gigantemente acima dos outros prédios, gritando sua dor, mostrando a sua força, destruindo paradigmas, tentando se revolucionar contra a paisagem reta, inflexível, dura, como um solitário que busca sua ideologia, sua razão de viver, sua missão, como um herói de guerra, que volta à pátria e busca não honras ou condecorações, que busca a felicidade por estar com sua parceira, buscando no meio da multidão de outros heróis, em meio à multidão de mulheres, em meio ao caos do cais do porto, os olhos por quem se apaixonou como nunca na sua vida; a força da busca mais que a vida, a obsessão pelo Plano das Idéias, pela prática Socrática, pela Ilíada, por Aída, pela loucura do Rei Lear... assim como eu ainda busco você!